E há Caio Fernando Abreu.
Caio não pertence a nenhuma dessas categorias isoladamente, porque sua literatura não cabe em classificações simples. Ele não escreve apenas bem. Ele escreve como quem abre o peito sem anestesia e entrega, pulsando, tudo aquilo que muitos de nós passamos a vida inteira tentando esconder.
Ler Caio 3D: O Essencial da Década de 1980 foi uma experiência estranha, no melhor sentido da palavra.
Porque em algum momento deixou de ser leitura e virou espelho.
Caio tem essa habilidade rara de entrar pelas frestas. Ele não arromba portas. Ele entra devagar, por uma frase aparentemente simples, por um diálogo cotidiano, por uma observação quase banal — e de repente você percebe que ele já está dentro, mexendo em gavetas emocionais que estavam fechadas há anos.
Talvez porque Caio compreendesse algo essencial sobre a vida: ninguém passa por ela ileso.
Como ele escreve, com a simplicidade brutal de quem entende a alma humana:
“Cada vivente com sua sina.”
Talvez seja isso.
Talvez todos nós sejamos feitos de pequenas e grandes dores, tentando coexistir com pequenas e grandes esperanças.
E Caio enxergava isso como poucos.
Seus personagens são humanos demais para serem confortáveis. Eles amam com medo. Desejam com culpa. Fogem enquanto querem ficar. Permanecem enquanto sonham partir.
São personagens profundamente imperfeitos.
Justamente por isso, tão reais.
Em suas páginas, encontramos saudade, carência, paixão, inadequação, desejo, solidão e aquela eterna busca humana por pertencimento. Não o pertencimento social, necessariamente. Mas algo ainda mais profundo: pertencer a si.
Talvez por isso Os Dragões Não Conhecem o Paraíso continue tão atual.
Seus dragões nunca foram monstros.
Sempre me pareceram pessoas intensas demais para caber em moldes pequenos. Pessoas que sentem em excesso. Que pensam em excesso. Que carregam incêndios silenciosos por dentro.
Gente que aprendeu a sobreviver sem jamais deixar de sentir.
E sentir, às vezes, dói.
Há um trecho que me atravessou de um jeito particularmente delicado:
“Fiquei imaginando tudo enquanto ele contava que ia ser um grande médico desses modernos que curam a cabeça dos outros, deixar todo mundo feliz o tempo todo, pra sempre, sem nenhuma culpa.”
Há algo quase inocente e profundamente melancólico nessa passagem.
Porque, no fundo, ela toca numa das maiores ilusões humanas: a ideia de que existe alguma forma definitiva de cura. Um lugar onde a dor finalmente acaba. Onde a culpa desaparece. Onde as feridas deixam de existir.
Mas Caio sabia.
A vida não funciona assim.
Ninguém cura completamente ninguém.
E talvez isso já seja muito.
Caio nunca escreveu sobre uma felicidade pasteurizada. Nunca vendeu soluções prontas para a dor de existir. Pelo contrário: ele entendia que viver é justamente aprender a caminhar entre as rachaduras.
E talvez seja por isso que ele ainda seja tão necessário.
Porque vivemos tempos acelerados, barulhentos, superficiais. Tempos em que sentir demais quase parece inconveniente. Em que profundidade assusta. Em que vulnerabilidade é confundida com fraqueza.
Caio segue na contramão.
E que tudo isso também faz parte.
Há ainda um fragmento que carrega uma beleza silenciosa:
“E porque o mundo, apesar de redondo, tem muitas esquinas encontram-se esses dois.”
Essa talvez seja uma das frases mais bonitas de Caio.
Porque fala de encontros.
A vida é feita dessas esquinas.
Caio escrevia dessas esquinas invisíveis.
Se eu precisasse resumir Caio Fernando Abreu em uma palavra, não hesitaria.
Visceral.
Mas talvez visceral ainda seja pouco.
Caio escrevia com nervos expostos.
E talvez seja por isso que sua literatura permaneça tão viva.
Porque enquanto houver saudade, medo, amor, ausência, desejo e essa eterna tentativa de entender o que fazemos com tudo isso…
Caio Fernando Abreu continuará necessário.
Não como quem oferece respostas.
Mas como quem acende luz, ainda que breve, dentro das partes mais silenciosas de nós.
E isso, talvez, seja uma das formas mais bonitas de literatura.
Aquela que não apenas lemos.
Aquela que nos lê de volta.

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