Outro dia ouvi novamente a expressão da moda: High Ticket.
Ela aparece em palestras, cursos, mentorias, reuniões e redes sociais. Surge quase sempre acompanhada de promessas grandiosas, gráficos ascendentes e fórmulas para alcançar uma vida supostamente extraordinária.
Em sua origem, não há nada de errado. Trata-se apenas de uma estratégia de vendas para produtos e serviços de maior valor agregado. O problema começa quando a lógica do mercado decide ultrapassar as fronteiras dos negócios e se instalar no território das relações humanas.
E parece que isso aconteceu.
Vivemos um tempo curioso. Nunca se falou tanto sobre conexões e nunca foi tão difícil encontrar encontros genuínos. As amizades ganharam nomes corporativos. Os relacionamentos passaram a ser avaliados pelo potencial de retorno. O afeto foi transformado em ativo. E a companhia de alguém, não raro, passou a ser medida pela utilidade que ela pode oferecer.
Há uma inquietação permanente em parecer pertencer.
A foto com a pessoa influente.
A mesa do restaurante certo.
O vinho correto.
O carro adequado.
O evento indispensável.
A legenda cuidadosamente construída para demonstrar sucesso.
Tudo parece precisar comunicar alguma coisa. Tudo precisa sinalizar status. Tudo precisa provar valor.
Mas, curiosamente, fala-se cada vez menos dos valores.
Pouco se conversa sobre lealdade. Sobre gentileza. Sobre caráter. Sobre coragem. Sobre a capacidade de permanecer quando não existe nenhuma vantagem em ficar.
Talvez porque essas virtudes não rendam fotografias tão impressionantes.
As amizades, em muitos círculos, deixaram de ser lugares de descanso para se tornarem espaços de negociação. Não se aproxima porque gosta. Aproxima-se porque pode ser interessante. Não se escuta porque importa. Escuta-se porque pode haver alguma oportunidade escondida naquela conversa.
É exaustivo.
Sinto falta das relações sem estratégia.
Das conversas que não pretendem vender nada.
Das risadas que não geram conteúdo.
Do café sem objetivo.
Do vinho simples compartilhado sem a necessidade de registrar o momento.
Da oração feita em silêncio.
Da amizade que permanece mesmo quando não há nenhum benefício envolvido.
Talvez o verdadeiro luxo dos nossos tempos não esteja nos ambientes exclusivos nem nas experiências premium.
Talvez o verdadeiro luxo seja encontrar alguém que não esteja calculando vantagens enquanto conversa com você.
Alguém que não precise transformar tudo em negócio.
Alguém que ainda saiba apreciar pessoas antes de apreciar posições, patrimônios ou sobrenomes.
Não tenho nada contra o High Ticket.
Tenho receio apenas de que, na tentativa de atribuir preço a tudo, estejamos esquecendo o valor das coisas que jamais deveriam estar à venda.
E seria uma enorme pobreza descobrir, tarde demais, que as melhores coisas da vida nunca tiveram etiqueta.
